Não foi acidente

Indígenas de Marãiwatsédé denunciam ameaças e pedem mais segurança para deslocamentos fora da aldeia durante processo de desintrusão.

“Não foi acidente, foi ameaça”, assim definiu Mário Paridzané ao descrever a perseguição e capotamento de um carro oficial dirigido por ele, que realizava o transporte de pacientes de Marãiwatsédé no último dia 3 de novembro. A hipótese propalada pela Associação dos Produtores Rurais da Suiá Missu (Aprub) e estampada nesta semana nos jornais de Mato Grosso de que o indígena teria ingerido bebida alcoólica ao volante ou simulado um acidente para acelerar o processo de desintrusão da Terra Indígena Marãiwatsédé soou como mais uma afronta à resistência Xavante em meio à pistolagem instalada na região entre São Félix do Araguaia, Bom Jesus do Araguaia, Alto Boa Vista e Ribeirão Cascalheira (MT) a serviço de fazendeiros que ocupam ilegalmente a terra indígena.

A perseguição por quatro veículos ao carro da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) dirigido pelo filho do cacique Damião Paridzané no último dia 3 foi mais um caso de atentado direto à integridade física dos indígenas que há 46 anos lutam para retornar e reocupar seu território tradicional. “Mário é habilitado, motorista profissional há muitos anos, e isso nunca aconteceu”, relata um indígena de Marãiwatsédé.

Ele se recorda de outros graves episódios acontecidos desde 2004, quando os Xavante ocuparam uma pequena parcela dos 165 mil hectares a que têm direito, não investigados pelas autoridades competentes: incêndios ateados de forma criminosa em áreas de pastagem no entorno da aldeia Marãiwatsédé, restringindo o espaço já diminuto para circulação dos indígenas e matando cabeças de gado utilizadas como fonte de alimentação pelos Xavante, por exemplo. “Os fazendeiros também já atiraram em um jovem que ficou com a perna quebrada, eles já roubaram nosso gado e queimaram o ônibus que usávamos para transporte escolar no Posto da Mata”, lembra outro integrante da comunidade. “Os fazendeiros disseram que se encontrarem um índio sozinho vão matar e sumir com ele. Ninguém tem dúvida de que agora não foi acidente, foi ameaça de novo”, alerta o indígena.

No retorno de Barra do Garças, após levar crianças desnutridas de Marãiwatsédé para serem atendidas no hospital, Mário fez uma parada em Água Boa e em Ribeirão Cascalheira, onde foi abordado por pessoas que questionavam se ele era filho do cacique Damião. Com medo, o indígena não respondeu e continuou seu caminho, mas notou nas proximidades do Posto Malu que estava sendo seguido por quatro veículos. Perto da terra indígena, aumentou a velocidade na tentativa de fuga, mas foi fechado por um dos carros e capotou a caminhonete. Os indígenas relatam que Mário foi socorrido pelo motorista de um caminhão que se encontrava parado na estrada e levado até a entrada da aldeia. Quando, na mesma noite, um grupo de indígenas retornou ao local do acidente encontrou a caminhonete incendiada.

O carro era o único veículo cedido pelo governo para atendimento à saúde indígena em Marãiwatsédé, cujos moradores sofrem inúmeros problemas de saúde agravados pela falta de acesso aos recursos naturais essenciais à sua sobrevivência. A aldeia registra altos índices de desnutrição em meio ao assoreamento de córregos, contaminação por agrotóxicos e falta de abastecimento de água potável. Com o acidente e perda total do veículo, a situação de transporte de pacientes, que já era ruim, ficou pior.

Mário sofreu ferimentos na cabeça e pelo corpo e, apesar de ter tentado ser atendido em Barra do Garças e Ribeirão Cascalheira, só conseguiu vaga no último dia 8 de novembro em um hospital em Canarana.

Depois de quase 20 anos de tramitação na Justiça, o processo de desintrusão da Terra Indígena Marãiwatsédé foi novamente autorizado pelo Supremo Tribunal Federal em outubro de 2012. O governo enviou a Força Nacional de Segurança, a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal para dar apoio às ações da FUNAI, que iniciou nesta semana as notificações aos fazendeiros detentores de propriedades dentro de Marãiwatsédé. Apesar da mobilização do governador de Mato Grosso, deputados e senadores ligados ao agronegócio em tentativas de negociação e adiamento dos prazos para a desintrusão junto à Casa Civil, a Secretaria Geral da Presidência da República afirmou que é falsa a informação de que a desintrusão será adiada ou reanalisada em 15 dias. O governo federal mantém posição firme na condução deste processo. A partir da notificação de saída, os ocupantes têm 30 dias para deixar a terra indígena.

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