Cacique Damião Paridzané na Rio+2 e carta à presidenta Dilma Rousseff

Rio de Janeiro – Nesta quinta-feira, o cacique Damião Paridzané estará no Rio Centro para exigir o cumprimento da decisão que determina a retirada dos invasores da Terra Indígena Marãiwatsédé (MT), de onde o povo Xavante foi retirado em 1966 pelo governo militar. Damião esteve na Eco 92 para cobrar o retorno de seu povo para Marãiwatsédé. Sua terra foi prometida, mas desde então loteada e desmatada. Hoje Marãiwatsédé é a terra indígena mais devastada da Amazônia brasileira.

Leia a carta do cacique na íntegra:

Exma. Sra. Presidenta Dilma Rousseff

Eu, cacique Damião Paridzané, vim à Rio+20 com representantes do povo Xavante exigir que o governo brasileiro garanta a implementação imediata do plano de desintrusão da Terra Indígena Marãiwatsédé (MT), permitindo a ocupação integral do nosso território, que foi prometido 20 anos atrás na Eco 92.

Nesses 20 anos que se passaram, Marãiwatsédé se transformou na Terra Indígena mais desmatada da Amazônia brasileira, envergonhando todo o nosso país com a devastação criminosa que produtores de soja e de gado estão ainda fazendo na nossa terra sagrada. Vinte anos também não foram suficientes para que a Justiça brasileira tivesse a força necessária para fazer valer a decisão que respeita a Constituição Federal e os povos indígenas, tomada por unanimidade e determinando a retirada dos invasores, pois todos entraram em nossa terra ilegalmente, de má fé.

Apesar de termos nosso território reconhecido, demarcado e homologado desde 1998, ocupamos 5% da área que é de nosso direito porque fazendeiros e políticos nos ameaçam, destroem a nossa mata em Marãiwatsédé deixando nossa comunidade sem caça, sem frutos e sem os remédios tradicionais de que precisamos. Eles também despejam agrotóxicos nos rios que abastecem a nossa aldeia, por isso muitas crianças estão doentes, com diarreia, vômito e pneumonia. Enquanto estamos aqui no Rio de Janeiro, recebemos a notícia de que mais uma criança faleceu na aldeia por desnutrição.

Nós lutamos e sofremos muito para estar aqui hoje. Não queremos perder a viagem. Viemos a Rio+20 pedir que o governo federal finalmente cumpra a decisão da Justiça, que no mês passado derrubou a liminar que suspendia a retirada dos fazendeiros. Agora, a desintrusão está novamente autorizada. Queremos que o governo permita uma transição rápida da terra invadida ao povo Xavante, garantindo assistência para a nossa integridade física, cultural e a recuperação das áreas devastadas nesses 20 anos.

Vinte anos de espera é muito tempo.

Eu fui criado em Marãiwatsédé antes do contato com o homem branco. Estou lutando há 46 anos. Eu era criança quando o governo retirou minha comunidade nos aviões da FAB em 1966. Desde aquela época estamos lutando para voltar e retomar nossa terra. Estou cansado. Mas não vou desistir. Nunca.

Cacique Damião Paridzané

One comment

  1. […] Na última quinta-feira, eles entregaram ao ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, uma carta pedindo compromisso do governo federal com a desintrusão imediata de Marãiwatsédé. O encontro também contou com a participação do Secretário de Articulação Social do governo federal, Paulo Maldos, da presidente da FUNAI, Marta Azevedo, que anunciaram uma visita a Marãiwatsédé no mês de julho. (Leia a carta na íntegra.) […]

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