Sem negociação: “eu quero minha neta viva em Marãiwatsédé”

Mesa “Marãiwatsédé – Terra de Esperança” na manhã deste sábado na Rio+20.

Povo Xavante retorna ao Rio para cobrar promessa não cumprida desde a Eco92.

Rio de Janeiro – “Meu programa saiu do ar porque o diretor um dia me perguntou: a quem interessa o índio brasileiro? Eu nunca me senti tão constrangido”, testemunhou o ator Marcos Palmeira, que participou ativamente da mesa que discutiu a desintrusão da Terra Indígena Marãiwatsédé na Cúpula dos Povos. Palmeira, que já foi batizado pelos Xavante e mantém uma relação de respeito com os povos indígenas, resumiu: “Esta é uma luta por dignidade. É uma luta do povo brasileiro contra a hipocrisia, a demagogia”, disse Marcos Palmeira. Ele esteve ao lado de Marcos Apurinã (COIAB), Márcia Zollinger (MPF MT), Marcio Astrini (Greenpeace), Aluizio Azanha (FUNAI), Ivar Busatto (OPAN), os antropólogos Iara Ferraz e João Pacheco (Museu Nacional), além da presença histórica do cacique Damião Paridzané.

Participantes da Mesa.

Cerca de 300 pessoas assistiram emocionadas ao evento, que começou com a exibição do curta metragem de Marcelo Bichara “Homem branco em Marãiwatsédé”, seguido por apresentações de danças e cantos rituais executados pelos 13 indígenas que viajaram por 3 dias desde a aldeia, no nordeste do Mato Grosso, até o Rio de Janeiro.

Marcos Apurinã, coordenador geral da COIAB, destacou que Marãiwatsédé simboliza a luta de todos os índios. Uma história densa, complexa e perversa, que envolve também a devastação, desde a Rio92, de cerca de 90% da terra indígena por grandes empresas agropecuárias que lucram com a produção ilegal de carne e grãos, conforme relatou Marcio Astrini, do Greenpeace.

A antropóloga Iara Ferraz assistiu com os próprios olhos políticos e fazendeiros se articularem logo após a Rio92 para invadir Marãiwatsédé e deu seu depoimento para enriquecer a compreensão do público sobre a região. João Pacheco sugeriu uma ação direta. “O processo de Marãiwatsédé deve ser levado para a Comissão da Verdade. Este é um povo que se encontra em uma das situações mais difíceis já vistas neste país”, declarou.

Através das palavras da procuradora Marcia Zollinger, do Ministério Público Federal de Mato Grosso, o longo e detalhado processo jurídico que adia a retomada de Marãiwatsédé pelos Xavante pôde ser compreendido com muito mais facilidade. Marcia, que esteve pessoalmente na aldeia no início deste mês para assistir a uma etapa do wapténhõno, ritual mais importante para os Xavante, explicou que graças a uma nova decisão do desembargador Souza Prudente, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), a desintrusão do território xavante está novamente autorizada.

“Eu vou esperar mais 20 dias. Não 20 anos!” Cacique Damião Paridzané na Cúpula dos Povos da Rio+20.

Tenda Chico Mendes estava lotada.

“É um absurdo. Mesmo com decisão judicial unânime, ainda assim não conseguimos cumprir. O estado do Mato Grosso aprovou uma lei absolutamente inconstitucional oferecendo em permuta o Parque Estadual do Araguaia e por causa disso o desembargador Fagundes de Deus suspendeu a desintrusão em 2011. Mas agora a FUNAI tem 20 dias para apresentar o plano de desintrusão”, comemorou.

Aluizio Azanha, assessor da presidência da FUNAI, informou que o plano de desintrusão ocorrerá por partes. “Vamos começar pela retirada dos maiores latifundiários. O apoio da Polícia Federal será essencial por causa da situação de pistolagem na região”, informou.

O cacique Damião, que viu a promessa de devolução de seu território ser quebrada dias depois da Rio92, quando Marãiwatsédé foi ilegalmente leiloada por políticos de São Félix do Araguaia, pediu mais garantias desta vez. “Eu quero saber o que vai garantir que os fazendeiros saiam. Vamos passar a Rio+20 sem resolver? O que a FUNAI vai assumir?”, perguntou.

Durante esses 20 anos em que esperou com sua comunidade o fim do processo judicial, Damião já recebeu do governo de Mato Grosso muitas propostas. “Não adianta negociar com o governador. Eu não quero enganar, enfraquecer a Constituição Federal. Se eu negociar, vou ganhar cinco cabeças de gado. A vaca vai morrer. O dinheiro vai acabar. Mas a terra nunca acaba”, enfatizou. “Muito fazendeiro quer acabar com a minha vida, mas eu não vou desistir. Eu quero a minha neta viva em cima do território dela, que é Marãiwatsédé”.

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